O tentador aproximou-se de Jesus e
disse-lhe: “Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães”
(Mt 4,3). O diabo em circunstâncias semelhantes procede de maneira semelhante.
Com a mesma tática com que tentou Adão no paraíso terrestre, tentou também a
Cristo no deserto e continua tentando qualquer cristão neste mundo. Tentou o
primeiro Adão pela gula, pela vanglória e pela avareza e, tentando-o, venceu-o.
Ao segundo Adão, isto é, Cristo, ele tentou de maneira semelhante, mas no foi
vencido no seu intento porque quem ele tentava então não era somente um homem,
mas era também Deus! Nós, que somos participantes de ambos, do homem segundo a
carne e de Deus segundo o espírito, despojemo-nos do homem velho com suas obras
que são a gula, a vanglória e a avareza e vistamo-nos do homem novo, renovados
pela confissão, para frearmos, com o jejum, o desenfreado ardor da gula, para
abatermos, com a humildade da confissão, a altura da vanglória, para pisarmos,
com a contrição do coração, o denso lodo da avareza. “Bem aventurados, diz o
Senhor, os pobres em espírito”, isto é, os que têm o espírito dolorido e o
coração contrito, “porque deles é o reino dos céus” (Mt 5,3).
Procure ainda observar que, assim como
o diabo tentou de gula o Senhor no deserto, de vanglória no templo, de avareza
no cimo do monte, assim também faz conosco todos os dias: tenta-nos de gula no
deserto do jejum, de vanglória no templo da oração e do ofício, de tantas
formas de avareza no monte dos nossos cargos. Enquanto fazemos jejum, ele nos
sugere a gula, com a qual pecamos em cinco maneiras, como diz o verso: “antes
do tempo, abundantemente, demais, com voracidade e com delicadeza exagerada”
(São Gregório). ANTES DO TEMPO, isto é, quando se come antes da hora;
ABUNDANTEMENTE, quando se excita a gulosice da língua e se quer aumentar um
apetite fraco com temperos, especiarias e toda espécie de comida; DEMAIS,
quando se come mais comida do que o corpo necessita; pois dizem alguns gulosos:
temos que fazer jejum, então vamos comer para suprir de uma só vez tanto o
almoço quanto a janta. Estes são como o bicho-da-seda que não sai da árvore em
que está até não devorá-la completamente. O “bruco” (bicho-da-seda) é chamado
assim porque é feito quase só de boca e simboliza muito bem os gulosos que são
tudo, gula e barriga, e assaltam o prato como se fosse uma fortaleza e não o
deixam se antes não o devoraram todo: ou se estoura a barriga ou se esvazia o
prato! COM VORACIDADE quando o homem se joga sobre qualquer comida como se
fosse assaltar uma fortaleza, abre os braços, estica as mãos, come com todo seu
corpo; à mesa é como um cão que, na comida, não quer ter rivais. COM DELICADEZA
EXAGERADA quando se procura só comidas deliciosas e preparadas com grande
esmero.
Como se lê no primeiro livro dos Reis,
sobre os filhos de Heli, que não queriam aceitar a carne cozida, mas só a crua,
para poderem prepará-la com mais temperos e outras iguarias. Semelhantemente, o
diabo nos tenta de vanglória no templo. Com efeito, enquanto estamos em oração,
enquanto recitamos o ofício e estamos ocupados na pregação, somos assaltados
pelo diabo com os dardos da vanglória e, infelizmente, muitas vezes feridos.
Existem efetivamente alguns que, enquanto oram e dobram os joelhos e soltam
suspiros, querem ser vistos. E há outros que, quando cantam em coro, modulam a
voz, fazem falsetes e desejam ser ouvidos. Enfim, há também os que, quando
pregam, elevam a voz como trovão, multiplicam as citações, interpretam-nas a
seu modo, giram-se pra cá e pra lá e desejam ser louvados. Todos esses
mercenários – acreditem-me – “já receberam sua recompensa” (Mt 6,2) e colocaram
sua filha no prostíbulo. Diz Moisés no Levítico: “Não profanes a tua filha,
fazendo-a prostituir-se” (19,29). Filha minha é a minha obra e eu a prostituo,
quer dizer, a coloco no prostíbulo quando a vendo pelo dinheiro da vanglória.
Por isso é que o Senhor nos aconselha: “Tu, porém, quando orares, entra no teu
quarto e, fechando tua porta, ora ao teu Pai que está lá no segredo” (Mt 6,6).
Tu, quando quiseres rezar ou fazer alguma coisa de bom – e é nisto que consiste
o “orar sem cessar” – entra em teu quarto, isto é, no segredo do teu coração, e
fecha a porta dos cinco sentidos para não desejar nem ser visto nem ser
escutado nem ser louvado. Com efeito, diz Lucas (1,9) que Zacarias entrou no
templo do Senhor na hora do incenso. No tempo da oração ‘que se eleva à
presença do Senhor como o incenso’ (Salmo 140,2). Tu deves entrar no templo do
teu coração e orar ao teu Pai e “o teu Pai, que vê no segredo, te recompensará”
(Mt 6,6). Além disso, do alto dos nossos encargos, da nossa passageira
dignidade, somos tentados a cometer muitos pecados de avareza. Não existe só a
avareza do dinheiro, mas também aquela do querer ser mais do que os outros. Os
avarentos, mais têm mais desejam possuir.
Aqueles que ocupam altos postos, quanto
mais sobem mais querem subir e assim acontece que caem com numa queda muito
mais ruidosa, já que “os ventos sopram mais nos lugares altos” (Ovídio) e “aos
ídolos é que são oferecidos sacrifícios nas alturas” (4 Reis 12,3). Diz Salomão
a propósito: “O fogo não diz nunca: basta!” (Prov 30,16). O fogo, quer dizer, a
avareza do dinheiro e das honrarias não diz nunca: basta! Mas o que é que diz
então? “Mais, mais!” þ Senhor Jesus, tirai, tirai estes dois “mais, mais” dos
prelados de vossa Igreja, que se pavoneiam no alto de suas dignidades
eclesiásticas e gastam o vosso patrimônio, por Vós conquistado com os tapas,
com as flagelações, com as cusparadas, com a cruz, com os cravos, com o
vinagre, com o fel e a lança. Nós, portanto, que somos chamados cristãos por
causa do nome de Cristo, imploramos todos juntos, com a devoção da alma e ao
mesmo Jesus Cristo, e pedimos insistentemente que ele, do espírito de
contrição, nos faça chegar ao deserto da confissão, a fim de que, nesta
Quaresma, mereçamos receber o perdão de todas as nossas maldades e, renovados e
purificados, nos tornemos dignos de gozar da alegria da sua santa Ressurreição
e ser colocados na glória da felicidade eterna. No-lo conceda Aquele a quem se
deve toda honra e toda glória por todos os séculos dos séculos. Amém.
Por: Antônio Jairo, Bruno Teles, Caio Batista, Rafael Axel, Rodrigo Brito e Ygor Moura
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